quarta-feira, 12 de abril de 2017

Deitei cedo e acordei ainda mais cedo. Eis um texto de quarta santa do Estadão. 

O que Jesus pensava? 

    O que se passava na cabeça de Jesus na quarta-feira da semana santa? Havia experimentado a maior glória da sua vida no domingo anterior. Ele fora saudado  com hosanas ao filho de Davi! A cidade o recebera como a um herói. A sagrada e tumultuada Jerusalém abrira suas portas de par em par. Mantos foram estendidos ao chão, ramos de oliveira agitados em frenesi. Foi o apogeu de uma carreira de três anos. Ele conhecia a cidade há muito tempo. Perdeu-se nela aos doze anos. Jerusalém, a dourada, com o templo refeito por Herodes, o Grande, deveria impressionar um homem nascido em Belém e criado na pacata Nazaré. 
    Jesus amava a cidade santa. Em Lucas 19,41, lemos que ele chorou ao ver a cidade e antecipar sua destruição. Era uma paixão de verdade:  sua maior crise de fúria tinha sido expulsar vendilhões do espaço sagrado. O gesto indicava seu zelo afetivo pelo lugar. Ninguém reconheceria o dócil pregador do Sermão da Montanha virando mesas e gritando. Talvez os íntimos  conseguissem vislumbrar além: a cena impactante nascia do amor do Filho pela casa do Pai. 
    Quarta-feira, mês de Nisã no calendário judaico, primavera na cidade santa. Dias mais frescos, céu azul, a temperatura mais amena de uma cidade alta. Como supomos que ele tinha capacidade de saber o que estava à frente, deveria existir um pouco de melancolia em relembrar que  alguns dos que o saudaram do Domingo de Ramos estariam entre os que gritariam Barrabás  na mesma semana. As mesmas bocas do “hosana” berrariam “crucifica-o”. 
    Era a semana de Pessach, da celebração judaica que lembrava a libertação da escravidão do Egito. Haveria uma ceia  com os amigos. Isso ocorreria amanhã, quinta-feira santa no calendário católico, quinta de endoenças na tradição portuguesa. 
    No fim do século XV, Leonardo da Vinci canonizou a santa ceia como um ambiente centralizado, com 13 homens, sem empregados ou mulheres (Convento de S. Maria delle Grazie, Milão) . Jesus anuncia que alguém vai trai-lo. O afresco mostra o espanto geral. Judas segura um saco de moedas e derruba sal, sinal de azar. Cem anos mais tarde, Tintoretto ampliou a cena no quadro A última Ceia (Basílica de San Giorgio Maggiore, Veneza). Há funcionários, cachorros, anjos, louça sendo lavada. Passamos do mundo ordenado de Leonardo para uma rave. 
    Na última ceia, Jesus diz algo comovente: eu desejei ardentemente comer esta ceia pascal antes de padecer (Lc, 22-15). É uma frase muito humana de compartilhar mesa e afeto com quem se ama antes do fim. Aqueles eram os doze homens que o acompanhavam havia anos. Alguns tinham gênio complexo. Tiago e João eram chamados de “filhos do trovão” pelo temperamento.  Pedro era decidido e líder, mas negaria três vezes ao mestre na madrugada seguinte.   Mesmo Judas estava ali. Talvez o Mestre tivesse uma dor dupla com seu tesoureiro: sabia que ele iria traí-lo, mas sabia que ele cometeria suicídio, o grande tabu judaico. Qual das dores mais incomodava ao Nazareno? Ser traído pelo discípulo-amigo ou perceber que Judas se condenava à danação? Era uma noite de emoções intensas. Os Evangelhos nunca narram Jesus sorrindo, mas descrevem inúmeros momentos do Messias chorando. 
   Uma das virtudes de Jesus era a capacidade de surpreender. De repente, para espanto geral, Ele se levanta e começa a lavar os pés dos discípulos.  Quer mostrar  o grau de amor heróico que reverte hierarquias. Quem comanda é o primeiro servidor dos comandados.  A lição é permanente e ainda não aprendida. Pedro, sempre cheio de arroubos teatrais, pede para ser lavado por completo.  Jesus deve ser paciente. O pescador de homens está em formação. Pedro é um herói ainda imperfeito, que afunda na água quando tem medo, que nega o mestre, que cochila enquanto Jesus agoniza e que, ao final, vira a pedra sobre a qual toda a obra seria edificada. Pedro, a “pedra”,  é humano. Jesus não escolheu anjos, mas seres humanos. Conhece a seus discípulos, e, curiosamente, ama-os do mesmo jeito. Amar conhecendo é um dom único e uma generosidade épica. 
   A cena mais tocante da  última Páscoa de Jesus é dada pelo afeto de João, o mais novo. Ele pousa a cabeça no peito do Mestre. É o benjamin do grupo e será o último a morrer. Ao redor daquela mesa estavam sentados o tema principal e cinco autores do Novo Testamento: Mateus, João, Pedro, Tiago e Judas Tadeu. Foi um encontro notável.  Gosto de imaginar que, ali perto, numa cerimônia mais ortodoxa, estava o maior autor individual do Novo Testamento: Saulo de Tarso, sem saber que sua vida seria mudada pelos acontecimentos que transcorriam no Cenáculo.  A ceia foi a última alegria de Jesus nas terríveis horas seguintes. 
    Como funciona a cabeça de alguém que sabe o futuro?  Eu me  casaria tendo presente todos os desentendimentos futuros? Conversaria com alguém que me causaria decepção anos mais tarde? Talvez por isso seja vedado aos homens o conhecimento do futuro. Não aguentaríamos a dor da verdade pela frente. 
    James Jacques Tissot (1836-1902)  retratou o Calvário  sob ângulo novo:  a cena vista apelos olhos de Jesus (Ce que voyait Notre-Seigneur sur la Croix c. 1890. Brooklyn Museum, Nova York) . Procure essa imagem e você será apresentado a uma interpretação pouco comum. Ao invés de um Jesus centralizado, um que não está na cena ( a não ser por um detalhe dos pés), entretanto determina o horizonte de visão. Assumimos a posição dEle. A morte na cruz era excruciante pela dor; terrível pela humilhação de tormento típico de escravo e, para piorar, era a chance para o Messias avaliar a natureza humana que não cessa de surpreender pela pusilanimidade. Somos todos canalhas e, invariavelmente, covardes. E Ele amou aos homens apesar do que via. Boa semana santa.

(texto de Leandro Karnal)